Helena tem a doçura da canção Acalanto, que seu ídolo Chico Buarque compôs para ninar a filha dele de igual nome. Porém, ao contrário da sugestão da letra de que “não vale a pena despertar”, a menina Helena dos Santos Reis, nascida e criada na zona rural de São José do Rio Preto, onde a diversão com seus cinco irmãos era a interação permanente com a natureza, despertou aos dezoito anos para ingressar na Polícia Militar do Estado de São Paulo  e fazer história.

Chegou ao posto máximo da carreira, e aos 47 anos a coronel Helena acaba de ser designada pelo governador Geraldo Alckmin para ocupar a chefia da Casa Militar e a coordenação estadual da Defesa Civil.

A Casa Militar, além do prédio do Palácio dos Bandeirantes, também é responsável pela segurança do governador e das demais autoridades.

A Coordenadoria Estadual da Defesa Civil atua incentivando a prevenção e fomentando a estruturação da Defesa Civil, apoiando os municípios em caso de desastres e calamidades quando extrapole a sua ação e reação.

A coronel Helena disse que tem metas ambiciosas de melhorar principalmente o aspecto preventivo. Para isso, já começou percorrer o estado proferindo palestras e incentivando os municípios a estruturarem suas defesas civis.

Por ser a primeira negra a ocupar o cargo de chefe da Casa Militar, numa função que existe há quase um século,  pode parecer, em tempos inclusivos, que a indicação foi meramente política; entretanto, ao conversar com a oficial, também fica patente o seu potencial intelectual e notável conhecimento acadêmico. O doutorado em ciências policiais de segurança pública e a experiência profissional adquirida em patrulhamentos de rua, atuando em áreas de degradação social, como a Cracolândia, lhe forjaram para exercer a chefia a que acaba de ser nomeada.

Não se esquiva de responder sobre questões polêmicas. Sobre racismo e preconceito de gênero na profissão, disse que a disciplina militar ajuda evitar que haja preconceito aberto, porque existe a consequência disciplinar. Acrescenta que sempre busca fazer um algo a mais, por saber da desconfiança que paira sobre as mulheres, mas lamenta o fato de que em 2017 negros e mulheres brasileiros ainda tenham que celebrar a nomeação de um cargo da relevância.

Helena é favorável à redução da maioridade penal pelo efeito que gera o medo da punição, contudo acredita que não é uma solução mágica, e enfatiza a necessidade da aplicação efetiva das penas. Por si só, segundo ela, a redução da criminalidade não vai ter o efeito que a sociedade pensa, todavia é uma forma de acabar com essa sensação de impunidade entre os adolescentes cooptados pelo crime, desde que a medida venha acompanhada da garantia de uma série de direitos civis e discernimento.

Também é favorável ao ciclo completo da PM, da prisão à condução do inquérito, para acelerar o trabalho e não desperdiçar tempo.

“O Brasil é um dos únicos países do mundo que mantêm essa separação entre uma polícia administrativa e outra judiciária. Os Estados Unidos têm a polícia municipal, do condado, estadual e federal. Todas com ciclo completo”, afirma.

Um drama surpreendeu sua família em 2001 quando seu irmão, sargento da PM, foi assassinado 16 dias antes de se casar. Ele voltava para casa, após sair do trabalho. Apesar da dor causada que faz Helena lembrar do irmão todos os dias, ainda assim não alimentou o desejo de vingança e da justiça com as próprias mãos. Busca entender a situação para não morrer espiritualmente, “porque a mágoa envenena”, disse.

Mas não se enganem com a doçura de Helena em seu 1,60, voz tranquila e semblante dócil. Ao transpor barreiras profissionais e chegar ao posto máximo da carreira, participando de um grupo seleto, tão cobiçado por todos e conquistado por uma minoria, que a conduziu à indicação do cargo de secretária de estado, aprendeu fazer uso da energia se for preciso, para que a lei seja cumprida.

Restou a certeza de que o governador do estado confiou a sua segurança não a uma negra nem para uma mulher, mas à Helena.

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Sargento Lago (SP)
Ex-policial da ROTA e jornalista diplomado, Lago também é cantor e compositor de músicas que retratam a rotina policial. Na reserva da PMESP desde 2009, acabou de lançar o livro Papa Mike – A realidade do policial militar, após visitar todos as corporações do Brasil.

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