Gosto de observar, a partir das consequências, o que gerou ou deu causa a determinados resultados.

Sobre a carência de conquistas dos profissionais de segurança pública, categoria mais aviltada quando luta por seus direitos, cheguei à seguinte conclusão: somos fracos porque somos desunidos. Contrariamos o dito popular “a união faz a força”.

Temos o hábito de achar que somos melhores que os outros e daí começa a segmentação entre policiais federais, civis, militares, bombeiros, guardas municipais etc., quando todos deveriam ver na coirmã mais um aliado de ideais.

Imperam as teorias de Maquiavel, em O Príncipe; Sun tzu, em A arte da guerra e outros pensadores que veem a divisão como estratégia de dominação, que neste caso só favorecem os governantes.

Na Polícia Militar, por exemplo, temos a divisão entre oficiais e praças. Os oficiais têm a subdivisão entre oficiais superiores (coronéis, tenentes coronéis e majores), Intermediários (capitães) e os subalternos, que são os tenentes. O aspirante a oficial fica isolado como círculo de praças especiais.

Os Praças são divididos em dois círculos: o de subtenentes e sargentos e o de cabos e soldados.

Não bastassem tantas divisões, outras replicam no cotidiano da vida de caserna, como as rivalidades entre os policiais da capital e do interior; os patrulheiros e os administrativos. O policiamento especializado esforça-se para postular o pertencimento a outra polícia, e, como se julgam superiores, seus membros concorrem com seus pares da “plêiade”.

É o exemplo das Unidades  de choque, onde impera a competição pelo título de melhor, ainda que cada uma exerça atividade específica. Mesmo dentro do próprio batalhão, compete-se entre pelotões e, às vezes, ainda há quem mergulhe em aflições para tornar-se destaque individual no próprio  pelotão e, para isso, não hesita em potencializar seus feitos ou, pior, diminuir os dos outros colegas.

Nos batalhões de área o pelotão da Força Tática quer ser melhor que o da radiopatrulha, que, por sua vez, se vê melhor que o pessoal do policiamento ostensivo, que tira onda com quem trabalha em posto fixo, ou seja, o tempo todo competimos com nós mesmos.

É comum a cooperação ser substituída pela arrogância ou pelo ódio entre irmãos de profissão. Que o digam os fiscalizadores de trânsito, que se transformam em semideuses diante de um colega de profissão e vice versa, isto é, o patrulheiro já guarda consigo o desejo de vingança.

Não percebemos, entretanto essa rivalidade prejudica na hora do senso comum em busca de melhorias para a categoria.


Recentemente uma entidade nacional que representa os coronéis anunciou que, se não for atendida em suas reivindicações, irá lutar para a desmilitarização das PMs. Uma vez sem os pesados grilhões que o regulamento militar impõe, os policiais poderiam reivindicar seus direitos trabalhistas e, em outras palavras, não seriam o cãozinho adestrado do governo que suporta silenciosamente as cargas, sem o benefício nem sequer do afago.Somente os coronéis acreditam que possa surgir efeito esse blefe. Todos nós, inclusive os governantes, sabemos que eles jamais abririam mão daquela farda cheia de estrelas, pompas e benefícios. Ainda mais que, por ser serviço essencial, jamais teríamos o direito à greve.

Apesar do fiasco na ameaça, infelizmente, apenas eles, os coronéis, conseguem suas reivindicações, pois são os responsáveis por manter essa tropa adestrada e subserviente. Se o benefício não vier em pecúnia, que sempre vem, virá em cargos de confiança, que os ajudarão a engordar seu razoável salário.

Enquanto isso, continuamos nessa disputa: “minha viatura é mais bonita, sua arma não presta”, nessa desunião que derrota todos os profissionais da segurança.

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Sargento Lago (SP)
Ex-policial da ROTA e jornalista diplomado, Lago também é cantor e compositor de músicas que retratam a rotina policial. Na reserva da PMESP desde 2009, acabou de lançar o livro Papa Mike – A realidade do policial militar, após visitar todos as corporações do Brasil.

5 Comentários

  1. Excelente texto.
    Retrata bem a força adormecida que os membros da segurança pública possuem, mas não se utilizam para conquistar as suas aspirações mais prementes.

    • Senhor Alberto Palmeira, a “referência” ao PM de trânsito, no Contexto, foi de maneira genérica e científica, assim como aos demais citados. O fato é que, exatamente por isso, por vermos as “Coisas” de modo individual, é que deixamos de obter Algo Coletivo, que é exatamente o que o Sargento explica.
      ANTONIO, Teresina-PI.

    • Jorge, concordo quando diz que onde há “Ser Humano”, sempre haverá Competição. Porém, a “Competição” entre Membros de um Grupo ou Classe, deve ser “Direcionada”de modo a melhorar o Trabalho Coletivo da Instituição e também das Condições de Trabalho de seus Integrantes; e não uma “Competição Individualista”, na qual somente “O Indivíduo” quer se “Sobressair” sobre os demais, não sabendo Ele que, o “ganho individual”, somente servirá para “alimentar” o seu Ego; e isto é efêmero.
      Antonio.

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